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49-3: Brazil Is Indigenous Land

Sineia Do Vale : Da Atuação De Base Para A Vice-presidência Do Caucus Indígena Internacional Para A Cop30 No Brasil

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Sineia do Vale (Wapichana), também conhecida como Sineia Wapichana, iniciou sua trajetória em 1992, aos 17 anos, quando foi convidada por seu tio Clóvis para trabalhar como secretária do Conselho Indígena de Roraima (CIR). Ali, ela acompanhou assembleias comunitárias e reuniões estratégicas dos mais de duzentos Povos Indígenas de Roraima, sobretudo em atividades ligadas à demarcação de terras, como a da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Essa vivência direta com lideranças e processos organizacionais construiu a base de sua formação política e técnica de sua atuação até os dias de hoje.

O trabalho de Sineia no campo ambiental começou em 1998, durante uma das maiores secas em Roraima. Atuou em um projeto emergencial chamado “Secas e Queimadas”, implementando ações de abastecimento de água e recuperação de sementes nas comunidades, mesmo sem treinamento prévio. A partir daí, percorreu uma trajetória voltada
à gestão territorial e ambiental, e em 2006 formou-se como gestora ambiental.

Em 2009, articulou a criação do Departamento de Gestão Territorial e Ambiental do CIR, integrando o conhecimento tradicional com temas emergentes como mudanças climáticas e REDD+, uma estrutura de mitigação climática desenvolvida pela Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) que visa incentivar os países em desenvolvimento a reduzir as emissões de gases efeito estufa e o desmatamento.

Um dos marcos dessa atuação foi a formação dos Agentes Ambientais Indígenas, iniciada a partir de uma parceria com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente. Essa formação foi adaptada com metodologia própria, específica para Indígenas, permitindo que agentes produzissem laudos e relatórios de fiscalização ambiental. Mesmo com a suspensão do programa federal, o CIR continuou a formar agentes com apoio de outras parcerias sob sua liderança.

Sineia liderou também a criação das Brigadas Comunitárias Indígenas e contribuiu para o desenvolvimento de metodologias participativas para os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs). A partir de 2011, o CIR construiu os primeiros PGTAs nas regiões das Serras e do Lavrado, com forte envolvimento das comunidades. Atualmente, o CIR já implementou 27 Planos de vida - mecanismos Indigenas locais de enfrentamento e adaptação
às mudanças climáticas, elaborados com metodologias próprias, sem consultores externos.

Para Sineia, implementar os Planos de vida é materializar os sonhos das comunidades sobre a gestão e proteção de seus territórios. “Quando implementamos os PGTAs em terras Indígenas, onde os Planos de Vida foram criados, estamos implementando as ações de que as comunidades precisam para continuar protegendo e cuidando de seus territórios”, afirma ela.

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A bela Floresta Amazônica Foto da equipe da CS

A criação dos PGTAs também coincidiu com a formulação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). Sineia participou das consultas públicas e defendeu que as políticas ancorassem as experiências do CIR, com uma participação robusta das comunidades locais. Em 2015, passou a atuar no Comitê Gestor da PNGATI,
coordenando a Câmara Técnica de Mudança do Clima, além de integrar o Comitê Indígena de Mudança Climática, uma iniciativa do movimento indígena do Brasil.

Sua entrada na arena internacional começou em 2011, participando da sua primeira COP em Durban, África do Sul, já articulada com o CIR e os temas de base. Desde então, atua na incidência internacional conectando as realidades comunitárias com as decisões multilaterais sobre clima, trazendo a importância dos conhecimentos Indígenas, da participação comunitária e da formação de base. Os desafios linguísticos do trabalho internacional não a impediram de aumentar sua participação e alcançar sua voz: acompanhou sessões de negociação com o apoio de tradutores, observando como os Povos Indígenas de diferentes
regiões do mundo e seus aliados lutam para garantir os direitos dos Povos Indígenas nos espaços da ONU.

Hoje, Sineia é co-presidente do Caucus Indígena Internacional da COP pela América Latina e Caribe, uma indicação feita pela COIAB com amplo apoio do movimento Indígena internacional. Ela destaca que sua presença nesse espaço não é uma busca por poder, mas por incidência política qualificada, com diplomacia Indígena e estratégias coletivas. Ressalta
que o Caucus é um espaço construído pelos próprios Povos Indígenas, com representantes das sete regiões socioculturais do mundo, unidos pela luta por direitos e reconhecimento nos processos da UNFCCC.

“Minha participação como copresidente para a América Latina e Caribe no Caucus Indígena é, para mim, muito mais uma forma de trazer a experiência que adquiri em um processo coletivo que foi construído a partir da base, do nível comunitário”, diz do Vale. “E, por meio do Caucus,
podemos coletivamente trazer os interesses dos Povos Indígenas para esses espaços que estão tão distantes da realidade de nossas comunidades.”

Para a próxima COP no Brasil, em Belém do Pará, Sineia destaca a oportunidade estratégica de garantir presença Indígena qualificada na Zona Azul, onde ocorrem as negociações centrais e determinantes para a questão climática mundial. Defende que as Terras Indígenas sejam incorporadas como contribuição nas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) para o combate às mudanças climáticas, além de exigir financiamento direto
para iniciativas baseadas em conhecimentos Indígenas. Temas prioritários incluem: financiamento climático, justiça climática, perdas e danos, REDD+, mercado de carbono,
transição justa, conhecimentos Indígenas em colaboração com as ciências, e o reconhecimento do papel das comunidades Indígenas na manutenção da biodiversidade e
equilíbrio climático.

“Em nosso trabalho, reunimos o conhecimento Indígena com questões emergentes. Com o tempo, novos temas foram surgindo — primeiro as mudanças climáticas, depois o REDD+, e, mais tarde, todos esses outros mecanismos que começaram a se fundir com o conhecimento que os Povos Indígenas já possuíam sobre como cuidar das comunidades e do meio ambiente. Tudo está conectado à natureza: à água, às plantações, às plantas medicinais e à
forma como somos capazes de trabalhar com esses novos temas. Essas são nossas próprias metodologias — elas não estão escritas em lugar nenhum. Elas são construídas através da experiência vivida. Trazemos uma metodologia de treinamento que eu sempre digo ser a melhor: a cocriação. Não trazemos nada pronto. Todo o nosso treinamento é sempre construído em conjunto com os agentes Indígenas”, diz do Vale.

Sua expectativa é que a COP no Brasil aprofunde a escuta das vozes Indígenas e avance na implementação de políticas públicas concretas com base nos planos de vida, fortalecendo a atuação local com respaldo internacional. Sineia traz a convicção de que a atuação Indígena nesses espaços deve ser coletiva, política e conectada com as realidades territoriais, e que a diplomacia Indígena é fundamental para garantir avanços efetivos nos processos climáticos globais.

Texto baseado na entrevista de Edson Krenak e Patricia Zuppi com Sineia Wapichana, veja a entrevista completa em nosso site www.cs.org/csq

This article is based on an interview with Sineia do Vale by Edson Krenak and Patricia Zuppi.
 

 

Foto cortesia de Sineia do Vale.

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