Carmem Cazaubon (Equipe CS)
João Felipe Yawanawá da Silva (Yawanawá), também conhecido como Tuata, vem de um família de agricultores e curandeiros tradicionais. Ele carrega o legado de sua família através de seu trabalho com plantas e medicinas tradicionais, recebendo da natureza inspiração para sua arte e força para seu trabalho. Tuata fez parte do programa de Bolsas para Jovens Indígenas da Cultural Survival em 2024.
O povo Yawanawá vive na Terra Indígena Rio Gregório, no Acre (Amazônia), localizada no município Tarauacá, no Acre, na Amazônia brasileira. “Somos conhecidos como o ‘povo do porco-espinho’. Em nossa língua, yawa se refere ao porco-espinho da floresta, o pecari, enquanto nawa significa povo. Atualmente, somos cerca de 1.300 pessoas. Estamos sempre reunidos, trabalhando coletivamente”, diz Tuata.
Junto com sua família, Tuata é fundador e líder do Centro Emã Yena, que nasceu de um sonho coletivo. Na língua Yawanawá, Emã Yena significa “lugar novo”, um recomeço, e início de uma nova vida e um novo tempo. É também o nome do projeto desenvolvido por Tuata em parceria com a Cultural Survival durante seu programa de bolsa.
Tendo aprendido com seu avô as alegrias de plantar, colher e caçar em seu território tradicional e o valor de fornecer alimento para a família e a comunidade, Tuata percebeu que havia uma necessidade urgente de maior soberania alimentar entre o povo Yawanawá. As grandes distâncias entre seu território e as poucas cidades vizinhas, combinadas com os desafios de transporte e dependência de fontes de alimentos estrangeiras, o motivaram a conectar com sua tradição e começar a trabalhar com a terra.

João Felipe Yawanawá da Silva.
Tuata começou concentrando-se em frutas e vegetais (culturas através das quais seria possível alcançar a autonomia alimentar). Entre as árvores plantadas estavam banana, limão, laranja, tangerina e mamão. Ele também plantou pimentas e espécies locais, como cupuaçu, mandioca e açaí. Tuata supervisionou todas as etapas do projeto, que envolveu a seleção das áreas de plantio, a preparação do solo, a construção dos canteiros, a coleta de mudas, o plantio e o cuidado das mudas. “Aprendi muito sobre como alocar os recursos e planejar as atividades. Foi um desafio e senti uma grande responsabilidade. Conseguimos através do trabalho duro e do respeito; aprendendo e crescendo uns com os outros”.
Embora Tuata liderasse a maioria das atividades, amigos e familiares também se envolveram profundamente com o projeto. A comunidade se uniu por um objetivo comum, entendendo que os benefícios do trabalho seriam compartilhados por todos.
A natureza foi uma inspiração constante para Tuata, mas também representou seu maior desafio. Em 2024, a Amazônia enfrentou o pior déficit pluviométrico de sua história, tão significativo que os principais rios da bacia amazônica atingiram os níveis mais baixos já registrados. O município de Tarauacá passou ao ano inteiro em seca, registrando alguns dos níveis mais extremos da região.

Essa seca severa, entendida como resultado das mudanças climáticas e do desmatamento, coincidiu com as fases iniciais do projeto Emã Yena, quando as plantas sofreram com essas condições adversas, e muitas foram perdidas. Ele conta que seu entusiasmo inicial foi abalado, mas que, com dedicação, colaboração e trabalho duro, os desafios foram superados. “Estava tão seco que às vezes do rio morrerm as algas—plantas resistiram, e isso foi lindo”, lembra ele.
Embora seu projeto tenha chegado ao fim, Tuata está motivado a dar continuidade ao trabalho iniciado. “Meu desejo é cada vez plantar mais e ter mais árvores. É isso que imagino para minha vida aqui, para minha casa, minha família e minha comunidade: ter frutas e alimentos não só para mim, mas para nossa aldeia que Emã Yena é a nossa casa e a nossa aldeia, colher da nossa terra, da nossa casa, e oferecer a nossa família, as nossas crianças.”
Tuata também sonha em reflorestar seu território com árvores nativas e conseguir um canteiro de pé medicinal para cuidar de si e de sua família. Ele destaca a importância de manter a cultura viva através da transmissão de conhecimentos tradicionais às gerações mais jovens, garantindo que as espécies vegetais e os saberes ancestrais não se percam.
Imagens cedidas por João Felipe Yawanawá da Silva.