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49-3: Brazil Is Indigenous Land

O Poder da Hospitalidade Radical no Enfrentamento da Destruição no Vale do Jequitinhonha

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Neste diálogo, Cleonice Pankararu Pataxó (Pataxó), líder da Aldeia Cinta Vermelha, e Angela Maria Martins Souza (Quilombola), líder do Quilombo Mutuca, falam sobre sua luta contra a mineração de lítio e a defesa de seus territórios no Vale do Jequitinhonha. Como forças feminina, a hospitalidade radical vem das mulheres – especialmente das mulheres Indígenas e quilombolas – que acolhem e resistem simultaneamente. Elas cuidam da terra, das pessoas e da memória. Mesmo sofrendo com a exploração e a violência, continuam a abrir espaço para outros, sem perder sua força ou suas culturas.

Cultural Survival: o que é “hospitalidade radical”?
Cleonice Pankararu Pataxó: A hospitalidade radical é uma prática reconhecida pelos Indígenas e das comunidades tradicionais há muito tempo. É uma resistência, uma condição e um instrumento importante para nós. Temos essa capacidade de nos unir para resistir aos novos desafios. No nosso caso, em nosso território, estamos hospedando pessoas como Xukuru, Kariri e Aranã. Eles chegam, nós os recebemos e eles nos ajudam de certa forma.

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Ângela Souza, foto cedida por Ângela Souza.

Ângela Souza: Da perspectiva da comunidade quilombola, como movimento, a hospitalidade radical é um gesto político de resistência e afirmação da vida coletiva. Hospedar é acolher sem transformar o outro em estrangeiro; é compartilhar comida, território e memória ancestral, reafirmando que a terra é um lugar de encontro, não de exclusão. A hospitalidade radical se opõe [ethos] colonial e capitalista que mercantiliza a hospitalidade, transformando-a em serviço. Receber é um ato de cuidado coletivo que fortalece os laços de solidariedade e amplia as redes de resistência diante do racismo estrutural, do patriarcado e do avanço do agronegócio e da mineração sobre os territórios. Enfrentamos o avanço da mineração de lítio desde 2020 no Vale do Jequitinhonha e no território Mutuca de Cima, um território quilombola. Essas empresas entram com a falácia da empregabilidade, com lucros que muitas vezes beneficiam empresas e investidores estrangeiros em detrimento das comunidades locais. Seu impacto causa danos ambientais e sociais irreversíveis. Como uma rede de resistência — hospitalidade radical dentro da nossa comunidade —, realizamos projetos para lutar contra a destruição do meio ambiente e contra as indústrias de mineração que afetam diretamente o território quilombola.

CS: Como a resistência criou alianças entre as comunidades quilombolas e Indígenas?

imgCleonice Pankararu Pataxó. Foto de Paulo Henrique Figueiredo.

CPP: Essa ação contra a mineração de lítio só foi possível porque recebemos colaboração e apoio, como alimentos, material publicitário e apoio de companheiros Indígenas, da Cultural Survival e de outras instituições que representam os povos quilombolas, e até mesmo de universidades. Nós, povos de comunidades tradicionais, Povos Indígenas, pescadores, descendentes, que sofrem racismo – essas práticas do colonialismo recaem sobre todos nós, porque nossa visão de mundo é diferente. É uma visão de mundo de coletividade, cordialidade e hospitalidade, que difere das práticas do colonizador e do explorador. E por isso que as alianças são muito importantes. Temos feito alianças desde a invasão do Brasil.

AS: A resistência contra a mineração e outras formas de colonialismo fortaleceu as alianças entre as comunidades quilombolas e Indígenas, pois ambas enfrentam ameaças semelhantes: a invasão de seus territórios, a destruição ambiental e a violação de seus direitos. Esses encontros têm se configurado como espaços de hospitalidade radical, onde acolher significa reconhecer no outro um aliado na luta pela terra, pelo bem viver e pela salvaguarda das memórias ancestrais. A parceria com a Cultural Survival apoia projetos de comunidades quilombolas e Indígenas em defesa dos direitos territoriais e da gestão comunitária dos recursos naturais.

CS: Que mudanças são essenciais para que essas comunidades prosperem juntas?

AS: São necessárias mudanças estruturais profundas. A primeira é a garantia total dos direitos territoriais, assegurando que nossos territórios não sejam violados pela mineração, pelo agronegócio ou por projetos que degradam o meio ambiente. É essencial fortalecer políticas públicas que reconheçam o conhecimento tradicional, garantam a soberania alimentar e promovam modelos de economia solidária que respeitem nossos modos de vida. Outra mudança fundamental [deve ser] o reconhecimento social de que os quilombolas e os Povos Indígenas são guardiões da terra e da biodiversidade, e que suas práticas de cuidado não podem ser tratadas como obstáculos, mas como alternativas viáveis e necessárias para um futuro sustentável.

CPP: Nossa resistência contra a mineração mostrou que devemos fortalecer alianças. A hospitalidade radical é a base para resistir e prosperar. É na reciprocidade e na coletividade que podemos nos proteger e pensar no futuro.

 

Foto superior de Rebeca Binda.

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