Mas do que uma resistência, o movimento Indígena é inspirado por fortes laços comunitários e familiares. Ele é fortalecido coletivamente por diferentes línguas, conhecimentos e formas de ação política. Newiwe Top’Tiro (Xavante), Aptsí’tsí Juruna (Juruna) e Roiti Metuktire (Kayapó) Mehengôkre) são três inúmeros jovens ativistas e líderes do movimento Indígena. Em uma conversa recente com o Cultural Survival, perguntamos a eles sobre a herança e o legado da luta ancestral que os trouxe até aqui, sobre a transmissão de valores, memórias e estratégias de luta entre gerações e sobre sonhos, uma instituição central para muitos Povos Indígenas na construção de um futuro ancestral.

Newiwe Top’Tiro (XAVANTE)
Newiwe Top’Tiro é filha de Hiparidi Top’Tiro, renomado líder A’uwẽ-Xavante, famoso por sua defesa incansável do bioma Cerrado e seu poderoso ativismo internacional. Atualmente, ela é estudante de arqueologia, motivada pelo desejo de pesquisar e recuperar os locais ancestrais de seu povo no coração do Brasil.
Eu demorei um pouco para entender como funcionava o movimento e o que meu pai realmente fazia. Ele sempre contava as histórias do meu avô, de como foi a trajetória dele na cidade, principalmente, da força que o nosso pensamento carregava. Ele e minha mãe se esforçaram ao máximo para que eu e minha irmã tivéssemos uma boa educação e pudéssemos ingressar no ensino superior, e esse foi nosso foco até mais ou menos uns 15 anos.
A partir dessa idade, começamos a interagir mais com o movimento Indígena e ver a dimensão desse universo do que meu pai participou. Obviamente, sabia o que acontecia por cima, e sempre vi meu pai em reuniões e viagens, mas não a profundidade e a quantidade de coisas que ele realizou. Sempre o vi como um homem forte e admirável, sempre contou muitas histórias intercalando com músicas para as tias, e atualmente, o vejo com muita consideração, como um homem incrível e guerreiro, como um amigo e um conselheiro para nossa jornada.
A luta da geração anterior foi, sem dúvida, grandiosa. Eles enfrentaram inúmeros desafios para que hoje possamos ser reconhecidos e ouvidos. Sei que meu pai sobreviveu a muitas batalhas e massacres, em um tempo em que poucos Indígenas ocupavam esses espaços. Havia uma maior abertura na época para entrar na política e na mídia, chamando a atenção para a importância de proteger nossas terras e nossa cultura. Eles enfrentaram batalhas duras e muitos sofrimentos para que a minha geração pudesse ocupar os espaços de hoje e ter voz ativa dentro do movimento.
Acredito que o movimento Indígena ainda está em constante construção e sempre estará. Com o passar do tempo, mudanças acontecem, e isso se reflete também em nós. Ainda que existam princípios fundamentais pelos quais seguimos lutando, é evidente que muitas transformações já ocorreram.

Um desses avanços importantes é o fortalecimento do papel ativo das mulheres no movimento. Cada vez mais mulheres fortes têm conquistado destaque e ocupado espaços de liderança. Cito aqui com muito orgulho minhas tias: Bernardina, Berenice e Tsitina, mulheres admiráveis, cuja atuação merece todo o reconhecimento. Talvez eu não me sinta “responsável” para fazer a mesma coisa, ninguém faz nada sozinho no movimento Indígena. Para mim, não se trata apenas de resistência, mas também de um gesto de gratidão por tudo que meu povo e minha aldeia fizeram por mim. Tudo o que estiver ao meu alcance para colaborar e dar visibilidade, eu farei. Tanto em nome do meu povo quanto em apoio ao movimento Indígena como um todo.
Quanto à influência do meu pai, penso constantemente em como posso aproveitar as oportunidades que surgem no meu caminho para seguir essa trajetória. O curso que faço hoje e os projetos que participei desde então são exemplos disso. Tenho muito orgulho das minhas raízes e quero, cada vez mais, ampliar o alcance do movimento Indígena e convidar outras pessoas a conhecer e se conectar com essa luta. E não falo apenas dos não Indígenas, mas dos parentes que ainda não tiveram uma participação ativa.
Tenho notado que cada vez mais jovens estão se interessando em participar ativamente do movimento Indígena, trazendo à tona debates que antes não eram tão amplamente discutidos. Um dos principais recursos que temos à nossa disposição hoje são as redes sociais, e é muito bonito ver como estamos ocupando esses espaços de forma estratégica e criativa. Fico feliz ao ver que, por meio dessas plataformas, conseguimos mostrar quem somos de verdade e desconstruir os estereótipos que foram impostos por olhares não Indígenas. Estamos usando as ferramentas digitais não apenas para nos comunicar, mas também para nos afirmar, nos fortalecer e nos conectar com outras realidades.
Também me chama atenção o crescimento do número de jovens comunicadores Indígenas, pessoas que usam suas câmeras, celulares e criatividade para registrar, narrar e compartilhar suas vivências, suas culturas e suas lutas. Isso tem gerado um impacto muito importante dentro e fora das nossas comunidades.
Sei que existe uma expectativa para que sejamos vozes fortes do movimento, mas no meu caso, nunca fui forçada a nada. Meu pai nunca me cobrou, ele apenas me mostrou, com o exemplo e as palavras, como podemos contribuir para melhorar nossa aldeia, fortalecer nossos vínculos com o nosso povo. Ele sempre nos incentivou a usar aquilo que escolhemos fazer, seja um estudo, uma profissão ou um projeto, como uma forma de seguir em frente, sempre lembrando nossa família no coração, independente da distância, como minha mãe também nos ensinou. Esse apoio me inspira muito.
Vejo que o movimento Indígena está em um bom caminho e sei que meus pais têm orgulho disso – não apenas do que fazemos, mas da maneira como conseguimos honrar o que nos foi ensinado, olhando para o futuro sem esquecer de onde viemos.
No meu caso, o caminho que desejo trilhar é pela arqueologia. Foi nessa área que eu me encontrei. A arqueologiaé rica, cheia de possibilidades, e me mostrou o quanto podemos contribuir não só para a ciência, mas também para o fortalecimento da nossa memória coletiva. Acredito que, por meio dela, posso ajudar na proteção e demar- cação das terras, além de manter viva a história dos nossos povos.
Digo isso porque, ao começar a buscar os registros técnicos e históricos ligados à construção da nossa identidade, percebi como isso faz diferença, principalmente para os mais velhos, que ainda carregam essas lembranças e conhecimentos. Nem sempre técnicas antigas ou saberes de outras aldeias são reconhecidos como história, e vejo na arqueologia uma forma de resgatar e dar visibilidade a tudo isso. Comparar experiências, reconstruir narrativas e manter viva nossa herança é uma forma de resistência e continuidade.

Aptsiré Waro Juruna (JURUNA/XAVANTE)
Aptsiré Waro Juruna é filho do falecido chefe xavante Mário Juruna, o primeiro indígena a ocupar uma cadeira no Parlamento na história do Brasil. Atualmente, ele é estudante da Universidade de Brasília, onde cursa duas graduações: Ciências Sociais e Antropologia. Ele também trabalha como colaborador e apoiador político da Associação Xavante Warã e é bolsista do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Desde de minha infância, pude observar a passagem de muitas lideranças Indígenas de muitos povos do Brasil, lideranças não Indígenas do cenário político nacional e também Indígenas de outros países que frequentavam nossa casa. Muitos vinham para conhecer meu pai e outros para dar continuidade a diversas ações voltadas para os Povos Indígenas. Eles contavam, como era costume, a origem da tradicional e forte linhagem política da nossa família Aptsiré — Aptsiré era o avô do meu pai — que permeia os A’uwe Xavante até hoje. Esse processo ficou gravado na minha memória, e eu pude ter contato com pessoas de diversas culturas ao redor do mundo que frequentavam nossa casa.
Como criança, eu não compreendia totalmente o que estava acontecendo, mas na minha percepção era algo muito natural e até comum. No entanto, com o passar dos anos, passei a compreender verdadeiramente o núcleo da minha família. Também aprendi através de recortes de jornais, noticiários de televisão e livros de história que relatavam os grandes feitos históricos do meu pai em favor da luta Indígena. Isso foi muito emocionante para mim e continua sendo.
Não podemos desconsiderar o senso de autenticidade cultural das gerações mais antigas e sua compreensão dos ataques externos que as cercaram, nem suas alianças de luta e mobilização com outros Povos Indígenas do Brasil e de outros países que também passaram por situações semelhantes de injustiça e violência. Essa relação precisa ser acompanhada o mais de perto possível, e isso exige que nós, a geração atual de Povos Indígenas, continuemos a fornecer acesso a ferramentas e mecanismos de proteção de nossos direitos a outros parentes que ainda têm acesso limitado ou nenhum acesso a esse tipo de informação. Portanto, acredito que nosso papel é levar oficinas de treinamentos em diversas áreas às aldeias, em áreas sociais como educação, saúde, política, direitos à terra e cultura, para que eles possam ter uma melhor compreensão e dimensão de tais situações.
Na minha opinião, qualquer pessoa que tenha acesso real a essas informações tem a obrigação de repassá-las a outros grupos que não têm esse acesso. Essas informações devem ser transmitidas de maneira confiável e disponibilizadas nos idiomas desses povos que estão sendo atacados por políticas que visam a assimilação cultural de nossas culturas e territórios.
Esse legado traz uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma certa naturalidade quando você percebe que, por meio de suas ações, pode ajudar muitas outras pessoas que talvez nunca venham a conhecer. Como diz o ditado no Brasil, “Se você tem maior acesso à água, é obrigado a saciar a sede de outros que não têm acesso à água”.

A ocupação dos Povos Indígenas nos espaços de decisão política no governo e em suas organizações de base no Brasil e internacionalmente é um reflexo dessa mudança positiva. Nossa inserção definitiva nesses espaços onde antes não existíamos, e nossa representatividade neles, é uma estratégia fundamental e necessária para a continuidade de nossa luta.
Apesar de termos culturas diferentes de outros Povos Indígenas, o elo que nos conecta a outros povos e culturas é o nosso enfrentamento às políticas que visam diminuir nossos direitos humanos como Povos Indígenas. A luta que enfrentamos continuará com nossos filhos, nossos netos e com as futuras gerações que estão sendo preparadas para ocupar esses cargos. A luta Indígena não terminará enquanto houver Povos Indígenas que ainda não sabem lutar por seus direitos.
Devemos permanecer fortes com nossas culturas e costumes em um único movimento, visando o bem coletivo e a preservação de nossos modos de vida e, consequentemente, de nossos territórios ancestrais. Porque é daí que vem nossa força: ela vem da natureza, e

Roiti Metuktire (KAYAPÓ/MBENGÔKRE/JURUNA)
Roiti Metuktire vive no Território Indígena Capoto/Jarina, em Mato Grosso. Ele é filho de Bedjai Txucarramãe, importante líder do povo Kayapó, e de Derajy Waro Juruna (Juruna), habitante tradicional do território do Xingu.
Desde a juventude, foi orientado pelos saberes tradicionais e pelos exemplos de luta dos meus pais, especialmente no que diz respeito à defesa da terra, da cultura e da vida dos Povos Indígenas. A minha trajetória é marcada pelo profundo respeito às raízes ancestrais e por um compromisso contínuo com a proteção do meio ambiente.
Desde 2006, atuo nas atividades do Instituto Raoni, de Voluntário a Coordenador de Gestão e Proteção Territorial. Nessa posição, tenho desempenhado um papel fundamental no fortalecimento das ações de Monitoramento e Vigilância na defesa dos territórios Indígenas, apoiando as comunidades em estratégias de proteção contra invasões, desmatamento e outras ameaças externas e internas como as mudanças climáticas.
Além da minha atuação técnica, sou reconhecido como um ativista Indígena comprometido com a causa ambiental e com a garantia dos direitos dos povos originários. Participo de fóruns, encontros e articulações políticas em níveis local e nacional, levando a voz dos Kayapó e de outros povos da floresta para espaços de decisão.
Minha dedicação reflete a continuidade de uma luta histórica e a esperança em um futuro onde os territórios Indígenas sejam respeitados e preservados como patrimônios vivos da humanidade. Sou inspirado pela luta do meu tio-avô Cacique Raoni, liderança que desde sempre usou essas palavras: “Respiramos o mesmo ar, bebemos a mesma água, então é dever nosso cuidar do que temos, que possamos ter um amanhã saudável para nós e netos”. Com esse pensamento, ele expressou ao mundo suas preocupações sobre as mudanças causadas pelo homem na Terra e o que poderia acontecer se não cuidarmos dela.
Sou inspirado pelo respeito que meu tio-avô conquistou ao longo de sua vida de luta. Ele lutou para que os Povos Indígenas fossem respeitados. Embora muitas vezes fosse difícil e muitas pessoas não compreendessem suas preocupações, ele nunca desistiu e sempre manteve seu espírito forte. Ele incentivava os Povos Indígenas a serem mais unidos, e é meu dever continuar seu legado.
