Ochefe Nailton Muniz Pataxó (Pataxó/Tupinambá), xamã guerreiro, é um dos líderes mais emblemáticos do movimento indígena no Brasil, especialmente na Bahia. Sua história de vida está intimamente ligada à trajetória de resistência, reocupação e afirmação territorial de seu povo na Terra Indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu, no município de Pau Brasil, sul da Bahia.
Nailton é mais que um cacique, é uma voz ancestral das Retomadas, um elo entre a memória dos mais velhos, dos Encantados, e o futuro das novas gerações. Viveu sua infância cercado pelas práticas tradicionais de cultivo e convívio comunitário que, como tantas outras famílias indígenas, foi expulso de sua terra por pressões de fazendeiros com apoio do Estado. Trabalhou desde cedo em atividades pesadas, como pedreiro em São Paulo, onde viveu por alguns anos. Seu retorno à Bahia, orientado por sua família, foi o início de uma nova etapa: a articulação política com o povo Pataxó e o engajamento direto nas lutas por território, dignidade e existência.
A partir dos anos 1980, o cacique tornou-se um dos principais nomes na luta pela retomada do território ancestral Pataxó. Ao lado de sua família (os Muniz) e de outras lideranças, promoveu a ocupação da Fazenda São Lucas, onde resistiram por 17 anos, enfrentando reintegrações violentas, ameaças, criminalização e a dura negligência do sistema judicial. Liderou também retomadas emblemáticas em áreas como Baixa Alegre, Tita Machado, São Sebastião e Bom Jesus, todas no estado da Bahia, um dos mais violentos contra Indígenas no país. Mesmo diante da brutalidade da polícia e da perseguição promovida por fazendeiros com respaldo do poder político e midiático, os Pataxó não recuaram.
Além das lutas locais, o cacique também participou ativamente das mobilizações nacionais Indígenas, especialmente na articulação dos Povos Indígenas para garantir os direitos constitucionais de 1988. Seu protagonismo contribuiu para que os Povos Indígenas fossem reconhecidos como sujeitos de direito no texto constitucional, uma das maiores conquistas históricas do movimento Indígena brasileiro e um marco na história mundial da luta Indígena.
O ano de 2012 marca a grande vitória de sua luta e do povo Pataxó: a consolidação da retomada do território do Rio Pardo. O processo levou o Supremo Tribunal Federal finalmente julgar a ação de nulidade de títulos, um gesto tardio diante da justiça já feita pelas mãos dos próprios Pataxós. Como afirma Nailton: “o Supremo só confirmou o que já tínhamos feito”.
Quem visita Nailton vai perceber a presença de muitos jovens ao seu redor. Como música, contação de histórias, de lutas e retomadas. Ele trabalhou incansavelmente na formação política e espiritual de jovens, idealizando simulações e treinamentos com os mais novos para que se tornem como ele, guerreiros e articuladores, conscientes da missão ancestral que carregam os filhos da terra. Essa pedagogia da luta e da retomada, feita com sabedoria, coletividade e estratégia, fortaleceu a juventude Pataxó para seguir ocupando, denunciando e cuidando do território.
Figura de firmeza delicada, Nailton traz dores profundas como a morte de parentes próximos como de sua irmã e do pai Nega Pataxó em 2024. Os dois foram alvo de tiros durante um ataque de fazendeiros na Fazenda Inhuma durante um processo de retomada. Ele ficou ferido, se recuperou, fez o luto da irmã e como faz em seus rituais, bateu a concha no chão, e declarou “aqui é terra Indígena. Aqui fazendeiro não volta!”. Cacique Nailton é, hoje, uma das maiores referências de liderança Indígena no Brasil, sua história encarna a sabedoria dos anciãos e a força dos que nunca se renderam. É exemplo vivo de que retomar não é somente ocupar: é re-existir, com dignidade, no tempo e no território.
Foto cedida pelo chefe Nailton Muniz Pataxó.